Um estudo recente publicado na revista científica Cancer trouxe novas e importantes evidências sobre a relação entre o consumo de álcool ao longo da vida e o risco de desenvolvimento de cancro colorretal, uma das formas mais comuns de cancro no mundo. Os investigadores acompanharam durante cerca de duas décadas mais de 88 000 adultos que participavam no Prostate, Lung, Colorectal, and Ovarian (PLCO) Cancer Screening Trial nos Estados Unidos, e concluíram que padrões de consumo de álcool parecem desempenhar um papel relevante no risco desta doença.
Os dados recolhidos revelam que quem consumiu em média 14 ou mais bebidas alcoólicas por semana ao longo da vida (o equivalente a duas bebidas por dia ou mais) teve um risco aumentado de cerca de 25 % de vir a desenvolver cancro colorretal, em comparação com pessoas que consumiam menos de uma bebida por semana. A associação foi ainda mais forte quando se considerou o tipo de cancro colorretal, pois o risco de cancro retal foi quase o dobro entre os consumidores mais intensivos.
Ao analisar o padrão de consumo ao longo da vida, os investigadores também observaram que aqueles que mantiveram um consumo elevado de álcool consistentemente na idade adulta tiveram um risco de cancro colorretal até 91 % superior em comparação com os que sempre mantiveram um consumo muito baixo. Estes resultados sugerem que não é apenas o volume eventual de álcool que conta, mas sim a consistência com que se bebe ao longo de muitos anos.
A forma como o estudo foi conduzido ajuda a reforçar a ligação entre consumo de álcool e risco elevado de cancro: os participantes já eram considerados saudáveis no início, sem histórico de cancro, e foram avaliados ao longo de aproximadamente 14,5 anos de acompanhamento. Durante esse período foram registados 1 679 casos de cancro colorretal, permitindo aos investigadores ter uma base sólida de dados para análise.
Um aspeto interessante e potencialmente animador do estudo é que os indivíduos que já tinham deixado de consumir álcool não apresentaram um risco significativamente maior de cancro colorretal quando comparados com aqueles que sempre tinham tido um consumo muito baixo. De facto, os ex-bebedores também mostraram uma menor probabilidade de desenvolver adenomas colorretais não cancerosos, que são frequentemente considerados precursores do cancro. Esta observação sugere que reduzir ou abandonar o consumo de álcool pode, ao longo do tempo, reduzir o risco de formação dessas lesões e, por extensão, o risco de cancro.
Este estudo enquadra-se num corpo mais amplo de investigação que já tinha associado o consumo de álcool a um maior risco de vários tipos de cancro, incluindo o câncer de pulmão, fígado, mama, boca e garganta, além do colorretal. A investigação reforça a noção de que o álcool pode funcionar como um fator carcinogénico, ou seja, uma substância que contribui para o desenvolvimento do cancro no organismo.
Quando o álcool é metabolizado no organismo, ele é convertido em acetaldeído, uma substância tóxica e considerada carcinogénica, que pode danificar o ADN e interferir nos processos naturais de reparação celular. Alguns estudos sugerem também que o álcool pode alterar a composição da microbiota intestinal, influenciar hormonas ou favorecer inflamação crónica, todos fatores que podem contribuir para o desenvolvimento de tumores no cólon e no recto.
Para além da conclusão central sobre o risco aumentado com o consumo pesado e constante de álcool, os autores do estudo também destacaram resultados que podem parecer contraditórios à primeira vista: participantes que consumiam uma quantidade moderada de álcool (entre sete e menos de 14 bebidas por semana) apresentaram um risco ligeiramente inferior de cancro colorretal em comparação com os consumidores muito leves. Este resultado foi mais evidente no cancro do cólon distal, a parte final do cólon antes do recto. No entanto, os investigadores advertiram que esta associação aparentemente "protectora" deve ser interpretada com cuidado, pois pode refletir diferenças em outros comportamentos de vida, imprecisões no relato do consumo de álcool ou fatores que não foram totalmente controlados no estudo.
Não obstante, e mesmo com este dado sobre consumo moderado, a recomendação geral continua a favorecer a minimização do consumo de álcool, especialmente para fins de prevenção do cancro. A evidência acumulada até hoje aponta para um aumento de risco particularmente evidente entre aqueles que bebem de forma intensiva e consistente ao longo da vida, reforçando a importância de políticas e orientações de saúde pública que promovam a redução do consumo de álcool.
Além disso, a investigação reforça a importância de estratégias de rastreio precoce e vigilância médica, especialmente em grupos de maior risco. A deteção precoce do cancro colorretal, através de colonoscopias e outros testes de rastreio recomendados, continua a ser uma ferramenta vital para reduzir a mortalidade associada a esta doença. A combinação de redução de fatores de risco (como o consumo de álcool, tabagismo e uma dieta pobre em fibras) com rastreio regular oferece um enfoque mais abrangente para a prevenção e controlo do cancro colorretal.
Este estudo acrescenta ainda uma dimensão à discussão sobre o impacto do estilo de vida ao longo da vida no risco de doenças crónicas. Ao considerar não apenas o consumo atual, mas também os padrões de consumo ao longo de décadas, a investigação aprofunda a nossa compreensão sobre como comportamentos aparentemente rotineiros, como beber álcool, podem ter consequências profundas e duradouras na saúde.
Os especialistas sublinham que os resultados não implicam apenas os grandes consumidores ou aqueles com dependência alcoólica. Para além disso, o risco acumulado ao longo de muitos anos torna claro que mesmo níveis moderados de consumo podem ter implicações para a saúde do cólon e do recto, ainda que de forma menos pronunciada do que o consumo pesado. Por essa razão, as recomendações de saúde tendem a favorecer padrões de consumo que se aproximem mais do consumo leve ou da abstenção total.
Convém ainda referir que este tipo de estudo tem limitações inerentes, como a dependência em relatos dos participantes sobre o seu consumo de álcool ao longo da vida, o que pode introduzir algum grau de imprecisão. Apesar disso, os padrões observados são consistentes com uma vasta literatura que associa o álcool a um maior risco de diversos tipos de cancro, reforçando a credibilidade das conclusões.
Em resumo, a investigação representa um alerta claro sobre os potenciais efeitos adversos do consumo elevado e persistente de álcool no risco de cancro colorretal. As descobertas evidenciam que um padrão de consumo elevado ao longo da vida está associado a um risco substancialmente maior de esta forma de cancro, especialmente no recto. Ao mesmo tempo, sugerem que reduzir ou cessar o consumo pode trazer benefícios, diminuindo o risco de tumores precancerosos e aproximando o risco daquele observado em consumidores muito leves.
Fica, portanto, reforçada a mensagem de que estilos de vida mais saudáveis, que incluam a moderação ou a abstenção de álcool, uma alimentação equilibrada, atividade física regular e a participação em programas de rastreio, podem contribuir de forma significativa para a redução do risco de cancro colorretal e para a promoção de uma melhor saúde ao longo de toda a vida.