Uma análise de mais de 28 mil notificações de efeitos adversos enviadas à agência norte americana do medicamento identificou uma associação entre bebidas energéticas, suplementos estimulantes e problemas cardiovasculares graves em jovens. As notificações envolvendo estes produtos mencionavam paragem cardíaca 11 vezes mais frequentemente e enfarte do miocárdio 4,5 vezes mais frequentemente, com particular destaque para adultos entre os 18 e os 34 anos.
O consumo de bebidas energéticas tem aumentado significativamente nos últimos anos, sobretudo entre os adultos jovens, que recorrem frequentemente a estes produtos para combater o cansaço, melhorar a concentração ou aumentar o rendimento durante a atividade física. Embora sejam comercializadas como bebidas destinadas a proporcionar energia e maior estado de alerta, a sua composição pode incluir quantidades elevadas de cafeína e outras substâncias estimulantes capazes de influenciar o funcionamento do sistema cardiovascular.
Uma nova investigação vem reforçar as preocupações relativamente aos potenciais efeitos destes produtos na saúde do coração. Os resultados, apresentados nas sessões científicas de 2026 da American Heart Association, nos Estados Unidos, identificaram uma associação entre produtos contendo cafeína ou outros estimulantes e uma maior frequência de notificações de acontecimentos cardiovasculares graves.
A investigação analisou 28 345 notificações de possíveis efeitos adversos registadas numa base de dados de segurança da Food and Drug Administration, conhecida como FDA, entre 2017 e 2025. Deste total, 854 notificações estavam relacionadas com bebidas energéticas ou suplementos alimentares contendo cafeína e outras substâncias estimulantes. As restantes 27 491 envolviam produtos sem estes ingredientes, incluindo refrigerantes, barras proteicas, batidos de substituição de refeições, smoothies e vitaminas.
Quando compararam os dois grupos de notificações, os investigadores identificaram diferenças expressivas na frequência com que eram mencionados determinados problemas cardiovasculares. As notificações relacionadas com produtos contendo cafeína ou outros estimulantes tinham uma probabilidade aproximadamente 11 vezes superior de mencionar paragem cardíaca, comparativamente às notificações associadas aos produtos sem estes ingredientes.
A diferença também foi significativa relativamente ao enfarte do miocárdio. Neste caso, os acontecimentos foram mencionados cerca de 4,5 vezes mais frequentemente nas notificações relacionadas com produtos estimulantes. As alterações do ritmo cardíaco, incluindo arritmias ventriculares e palpitações, surgiram aproximadamente quatro vezes mais frequentemente.
Os investigadores identificaram ainda uma frequência quase três vezes superior de notificações relacionadas com aumento da frequência cardíaca. A dor no peito foi mencionada 2,71 vezes mais frequentemente, enquanto os episódios de desmaio surgiram aproximadamente duas vezes mais vezes nas notificações associadas aos produtos com cafeína e outros estimulantes.
Um dos aspetos que mais chamou a atenção dos investigadores foi a distribuição etária dos casos. Cerca de 45% das notificações que relacionavam produtos estimulantes com acontecimentos cardiovasculares envolviam pessoas entre os 18 e os 34 anos. Trata-se de um grupo etário particularmente interessante para a investigação, uma vez que os problemas cardiovasculares graves são, em geral, menos frequentes nesta fase da vida do que em idades mais avançadas.
Os investigadores não conseguiram determinar com precisão por que razão os adultos jovens estavam tão representados nas notificações analisadas. Uma das possibilidades é que este grupo consuma bebidas energéticas e suplementos estimulantes com maior frequência, nomeadamente para melhorar o desempenho académico, combater a privação de sono ou aumentar a capacidade física durante o exercício.
Outra hipótese prende-se com as circunstâncias em que estes produtos são consumidos. A ingestão de bebidas energéticas antes de atividades físicas intensas, a combinação com álcool ou outras substâncias e a utilização simultânea de diferentes produtos com cafeína podem aumentar a exposição total aos estimulantes. Também não se exclui que algumas pessoas tenham alterações cardiovasculares preexistentes que ainda não foram diagnosticadas e que possam aumentar a sua vulnerabilidade.
Importa, contudo, interpretar estes resultados com alguma prudência. A investigação identificou associações entre o consumo de produtos estimulantes e a frequência de notificações de problemas cardiovasculares, mas não demonstrou que as bebidas energéticas sejam diretamente responsáveis pelos acontecimentos registados. Os investigadores não conseguiram estabelecer uma relação de causa e efeito.
Esta distinção é particularmente importante porque os números apresentados não representam o risco real de sofrer uma paragem cardíaca ou um enfarte depois de consumir uma bebida energética. Representam diferenças na frequência com que estes acontecimentos aparecem nas notificações enviadas à FDA. Não se sabe quantas pessoas consumiram os mesmos produtos sem apresentar qualquer problema, nem quantos acontecimentos cardiovasculares ocorreram sem terem sido comunicados à agência.
Além disso, as notificações voluntárias não permitem controlar adequadamente todos os fatores que podem ter contribuído para os acontecimentos. A quantidade de cafeína ingerida, a existência de doenças cardiovasculares, a utilização de medicamentos, o consumo de outras substâncias e a prática de exercício físico intenso são algumas das variáveis que podem influenciar os resultados.
Outro aspeto relevante é que os investigadores agruparam os produtos de acordo com os ingredientes e não com as marcas comerciais. Assim, os resultados não permitem identificar uma determinada bebida energética como sendo responsável pelos problemas observados. A categoria analisada incluía produtos com diferentes concentrações de cafeína e outras substâncias com propriedades estimulantes.
Entre os ingredientes considerados estavam a cafeína, a teobromina, o guaraná, a erva mate e extratos de chá verde ou café. Foram também incluídas substâncias com propriedades estimulantes mais específicas, como a sinefrina, a ioimbina, a efedra, a DMAA e a higenamina. A presença destes compostos pode alterar os efeitos fisiológicos dos produtos, sobretudo quando são utilizados em combinação.
A cafeína é uma substância estimulante que atua principalmente sobre o sistema nervoso central, reduzindo a sensação de cansaço e aumentando temporariamente o estado de alerta. No entanto, os seus efeitos não se limitam ao cérebro. A cafeína também influencia o sistema cardiovascular, podendo aumentar a frequência cardíaca e a pressão arterial, sobretudo quando consumida em quantidades elevadas ou por pessoas particularmente sensíveis aos seus efeitos.
Este efeito está relacionado com a estimulação do sistema nervoso simpático, responsável por preparar o organismo para situações de maior exigência física ou psicológica. Quando a sua atividade aumenta, pode ocorrer uma aceleração dos batimentos cardíacos, uma elevação da pressão arterial e um aumento do trabalho realizado pelo coração.
Em determinadas circunstâncias, sobretudo perante doses elevadas de estimulantes, estas alterações podem interferir com a atividade elétrica normal do coração. O resultado poderá ser o aparecimento de palpitações ou alterações do ritmo cardíaco. Em pessoas com determinadas doenças cardiovasculares ou predisposição para arritmias, a exposição excessiva a estas substâncias poderá representar uma preocupação adicional.
As bebidas energéticas apresentam características que justificam uma atenção especial. Ao contrário do café tradicional, podem combinar quantidades elevadas de cafeína com outros ingredientes estimulantes. O guaraná, por exemplo, é uma fonte natural de cafeína, pelo que a sua presença na composição pode contribuir para aumentar a quantidade total desta substância ingerida.
Alguns suplementos destinados a melhorar o desempenho desportivo também podem apresentar concentrações muito elevadas de estimulantes. Os investigadores chamam a atenção para o facto de determinados produtos pré treino poderem conter uma quantidade de cafeína por volume superior à encontrada no café tradicional. Quando são utilizados em conjunto com bebidas energéticas, café ou outras fontes de cafeína, torna-se mais fácil ultrapassar os limites habitualmente recomendados.
De acordo com as recomendações da American Heart Association, uma ingestão diária até 400 miligramas de cafeína é geralmente considerada segura para a maioria dos adultos saudáveis. Esta quantidade corresponde aproximadamente a quatro ou cinco chávenas de café filtrado, embora o teor de cafeína possa variar bastante consoante o tipo de café e a preparação utilizada.
Este valor não deve, contudo, ser interpretado como uma quantidade recomendada que todas as pessoas podem consumir sem preocupações. A tolerância à cafeína varia individualmente e depende de fatores como a idade, a sensibilidade pessoal, determinados problemas de saúde e a utilização de medicamentos. Pessoas com hipertensão arterial ou alterações do ritmo cardíaco poderão necessitar de limitar significativamente o consumo ou mesmo evitar estas substâncias, de acordo com a avaliação médica.
Além disso, os 400 miligramas referem-se à ingestão total diária de cafeína, independentemente da sua origem. Isto significa que devem ser contabilizadas todas as fontes, incluindo café, chá, refrigerantes, bebidas energéticas e suplementos alimentares. Uma pessoa que consuma várias destas opções ao longo do dia poderá ultrapassar o limite sem se aperceber.
O conteúdo de cafeína das bebidas energéticas varia consideravelmente entre produtos e tamanhos de embalagem. Algumas latas podem conter aproximadamente 80 miligramas, enquanto outras podem atingir 300 miligramas. Consequentemente, uma ou duas bebidas podem representar uma parte muito significativa da quantidade diária considerada geralmente segura para adultos saudáveis, sobretudo quando se acrescentam outras fontes de cafeína.
Os investigadores alertam também para as diferenças na regulamentação destes produtos. Nos Estados Unidos, as bebidas energéticas e muitos suplementos estimulantes são comercializados como alimentos ou suplementos alimentares, não estando sujeitos ao mesmo processo de avaliação prévia de segurança exigido aos medicamentos sujeitos a receita médica. Esta diferença significa que os requisitos de demonstração de eficácia e segurança antes da comercialização não são equivalentes.
A ausência de uma avaliação prévia semelhante à dos medicamentos não significa que todos estes produtos sejam necessariamente perigosos. No entanto, torna particularmente importante a existência de mecanismos eficazes de vigilância depois de chegarem ao mercado. A identificação de notificações de acontecimentos adversos pode ajudar as autoridades a detetar sinais de segurança que justifiquem investigações adicionais.
Os investigadores consideram que os profissionais de saúde devem prestar maior atenção ao consumo de bebidas energéticas e suplementos estimulantes, especialmente quando avaliam adultos jovens que apresentam palpitações, dor no peito, tonturas ou episódios de desmaio. Muitas vezes, o consumo destes produtos não é espontaneamente referido durante uma consulta, pelo que perguntar diretamente sobre os hábitos de consumo poderá ajudar a identificar possíveis fatores associados aos sintomas.
Entre os sinais que podem indicar uma ingestão excessiva de estimulantes encontram-se as palpitações, a aceleração dos batimentos cardíacos, a dor torácica, a sensação de tontura e a agitação. A intensidade e a duração dos sintomas são importantes para determinar a necessidade de avaliação médica. A ocorrência de dor no peito, desmaio ou batimentos cardíacos muito rápidos ou irregulares justifica uma avaliação médica urgente.
O estudo também reforça a necessidade de distinguir o consumo ocasional do consumo frequente e excessivo. Segundo os investigadores, a utilização esporádica destes produtos poderá representar um risco reduzido para a maioria dos adultos saudáveis. No entanto, o consumo regular, sobretudo quando envolve várias fontes de estimulantes, poderá aumentar a exposição a quantidades de cafeína e outros compostos com efeitos cardiovasculares relevantes.
É igualmente importante não assumir que a ausência de sintomas imediatos significa que o consumo é necessariamente inofensivo. A resposta individual aos estimulantes varia e algumas pessoas podem apresentar alterações da pressão arterial ou da frequência cardíaca sem reconhecerem uma relação com aquilo que ingeriram.
Apesar da relevância dos resultados, os próprios investigadores reconhecem que são necessários estudos adicionais, com metodologias mais rigorosas, para compreender melhor a relação entre estes produtos e os problemas cardiovasculares. Será particularmente importante determinar quais os ingredientes que apresentam maior influência, que quantidades podem representar um risco acrescido e de que forma fatores como o exercício físico, o consumo de álcool e as doenças preexistentes modificam os efeitos.
Por enquanto, os resultados constituem um sinal de alerta, sobretudo para os adultos jovens que recorrem frequentemente a bebidas energéticas e suplementos estimulantes. A possibilidade de estas substâncias contribuírem para alterações cardiovasculares graves merece atenção, mesmo que a investigação atual ainda não permita estabelecer uma relação direta de causalidade.
A principal recomendação passa por conhecer a quantidade total de cafeína ingerida diariamente, verificar cuidadosamente os rótulos dos produtos e evitar a combinação indiscriminada de diferentes fontes de estimulantes. Para pessoas com hipertensão arterial, arritmias ou outras doenças cardiovasculares, a prudência deverá ser ainda maior. A investigação reforça, assim, a importância de não considerar as bebidas energéticas produtos inofensivos apenas por estarem disponíveis como bebidas de consumo corrente.