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Fármacos contra a obesidade emagrecem, mas nem sempre melhoram a qualidade de vida

Fármacos contra a obesidade emagrecem, mas nem sempre melhoram a qualidade de vida

17 de Julho de 2026

Uma extensa revisão publicada no The BMJ mostra que, apesar da perda de peso significativa proporcionada por vários medicamentos contra a obesidade, poucos trazem benefícios comprovados para a qualidade de vida ou para a saúde cardiovascular a longo prazo.

A obesidade é hoje considerada um dos maiores desafios de saúde pública a nível mundial, tendo sido classificada pela Organização Mundial da Saúde como uma verdadeira epidemia global. Nos últimos anos, tem crescido de forma acentuada a procura por fármacos destinados à perda de peso, entre os quais se destacam os medicamentos da classe dos agonistas do recetor GLP-1, como o Wegovy, o Zepbound e o Foundayo, todos já aprovados pela agência norte-americana do medicamento (FDA) para esta finalidade.

De acordo com um inquérito representativo realizado nos Estados Unidos pela Kaiser Family Foundation, cerca de um em cada oito adultos, ou seja, 12% da população, afirma já ter tomado um medicamento GLP-1. Entre os adultos a quem um médico já diagnosticou excesso de peso ou obesidade, essa percentagem sobe para praticamente um em cada cinco, cerca de 22%.

Apesar de estes fármacos permitirem, quando associados a mudanças no estilo de vida, uma perda de peso clinicamente relevante, uma nova investigação sugere que esses ganhos nem sempre se traduzem em melhorias reais na qualidade de vida ou na saúde cardiovascular da maioria dos utilizadores.

A análise, publicada na revista científica The BMJ, concluiu que, embora vários medicamentos contra a obesidade estejam associados a reduções significativas de peso, apenas um número reduzido demonstrou evidências consistentes de melhoria de resultados cardiovasculares ao fim de um ano de tratamento.

Estes resultados reforçam a importância de personalizar as decisões terapêuticas relacionadas com a obesidade, tendo em conta os benefícios esperados, os riscos potenciais, o peso do próprio tratamento no quotidiano do doente, os custos, a disponibilidade dos fármacos e as preferências pessoais de cada pessoa.

Para compreender melhor como se comparam entre si os diferentes tratamentos disponíveis, a equipa de investigadores analisou dados provenientes de ensaios clínicos randomizados que avaliaram estes medicamentos em confronto com intervenções no estilo de vida, placebo ou outros fármacos.

A revisão incluiu 262 ensaios clínicos, envolvendo um total de 99.791 participantes, com uma idade mediana de 49 anos e um índice de massa corporal mediano de 35. Cerca de 63% dos participantes eram do sexo feminino.

Os estudos analisados abrangeram 19 medicamentos contra a obesidade, tanto os já disponíveis no mercado como alguns ainda em fase de desenvolvimento, com períodos de acompanhamento que variaram entre as 12 e as 172 semanas.

Os investigadores avaliaram diversos parâmetros, incluindo a perda de peso, as alterações na massa gorda e na massa muscular, a qualidade de vida, os efeitos secundários gastrointestinais, a fadiga, problemas relacionados com a vesícula biliar e desfechos cardiovasculares.

Ainda que a qualidade dos ensaios clínicos variasse consideravelmente entre si, a equipa recorreu ao sistema GRADE, amplamente reconhecido na comunidade científica, para classificar o grau de fiabilidade da evidência recolhida.

Embora já seja sabido que os fármacos contra a obesidade podem originar perdas de peso substanciais, os benefícios variam bastante de medicamento para medicamento. As maiores reduções de peso corporal ao fim de um ano, em comparação apenas com mudanças de estilo de vida, foram observadas com a tirzepatida, que atingiu uma redução de 14,9%, seguida do CagriSema, com 14,8%, da semaglutida oral, com 10,9%, do orforglipron, com 9,9%, da semaglutida injetável, com 9,8%, e da associação fentermina e topiramato, com 8,1%.

Vários fármacos mais recentes, como a retatrutida, a ecnoglutida e a mazdutida, também apresentaram perdas de peso consideráveis. No entanto, os investigadores alertam que a evidência disponível sobre estes tratamentos ainda é limitada e considerada de baixa ou muito baixa certeza científica.

O estudo identificou ainda um padrão consistente, o de que uma maior perda de peso costuma estar associada a um maior risco de efeitos secundários e de abandono do tratamento por parte dos doentes.

Os investigadores verificaram que os medicamentos responsáveis por reduções mais acentuadas de peso corporal também tendiam a provocar mais efeitos indesejados, sobretudo sintomas gastrointestinais como náuseas e outros problemas digestivos.

A perda de massa magra, que inclui o tecido muscular, foi outro aspeto que preocupou os autores do estudo. A tirzepatida, por exemplo, provocou a maior redução de massa gorda entre todos os fármacos analisados, com uma diminuição de 25,7%, mas foi também associada à maior perda de massa magra, na ordem dos 8,3%.

Segundo os autores, este dado evidencia um verdadeiro compromisso entre os benefícios da perda de peso e os potenciais prejuízos associados ao tratamento. Sheyu Li, professor clínico e endocrinologista, ligado ao Departamento de Endocrinologia e Metabolismo e ao centro MAGIC China, no Hospital do Oeste da China, na Universidade do Sichuan, sublinhou que os fármacos contra a obesidade não devem ser avaliados apenas pela perda de peso conseguida.

Segundo o especialista, a decisão terapêutica deve assentar numa análise individualizada dos benefícios e dos prejuízos, incluindo a prevenção cardiovascular em pessoas com maior risco, a perda de massa gorda, a perda de massa magra, a fadiga e outros desconfortos associados ao tratamento farmacológico.

Apesar da eficácia de alguns destes medicamentos na perda de peso, a maioria não demonstrou melhorias claras na qualidade de vida dos doentes. Os investigadores concluíram que nenhum dos fármacos analisados reduziu, de forma convincente, o risco de insuficiência renal, nem produziu melhorias clinicamente relevantes na qualidade de vida percecionada pelos próprios doentes.

De entre todos os medicamentos estudados, apenas a semaglutida injetável esteve associada a um menor risco de vários desfechos cardiovasculares graves, incluindo uma redução de 19% no risco de morte por qualquer causa, uma diminuição de 28% no risco de enfarte do miocárdio e uma redução de 57% no risco de insuficiência cardíaca. A tirzepatida também foi associada a uma diminuição do risco de insuficiência cardíaca, na ordem dos 51%.

Sheyu Li explicou que a avaliação da qualidade de vida é uma medida global, que engloba todas as dimensões da vida quotidiana do doente. A conclusão de que não existe melhoria assenta, portanto, num efeito médio observado na globalidade da amostra estudada.

Segundo o investigador, nos adultos com maiores benefícios cardiovasculares, fármacos como a semaglutida e a tirzepatida trazem vantagens promissoras, e é provável que a qualidade de vida global seja diferente entre quem sofre e quem não sofre eventos cardiovasculares. Em contrapartida, muitas pessoas experienciam fadiga, sintomas gastrointestinais e outros desconfortos durante o uso destes fármacos.

Como apenas uma pequena parte da população estudada apresentava maior risco cardiovascular, o efeito médio sobre a qualidade de vida acaba por ser diluído pelas pessoas com menor risco, que não retiram esse mesmo benefício. Isto significa que quem beneficia apenas da perda de peso, sem uma redução significativa de eventos clínicos relevantes, não regista necessariamente uma melhoria efetiva na sua qualidade de vida.

O investigador destacou ainda que nem todas as pessoas com obesidade precisam de recorrer a fármacos, sendo relevante considerar o conceito de prontidão para o tratamento. Segundo Li, o peso corporal é apenas um número, um indicador substituto que carece de validação face a outros resultados verdadeiramente relevantes para o doente, pelo que estes devem pesar mais na decisão do que a simples redução numérica na balança.

Mir Ali, médico cirurgião bariátrico e diretor médico do centro de cirurgia de perda de peso do Orange Coast Medical Center, na Califórnia, que não participou no estudo, partilhou uma opinião semelhante junto do Medical News Today. Segundo Ali, apesar de muitos destes medicamentos proporcionarem excelentes resultados na perda de peso, a principal conclusão a reter é que o controlo do peso a longo prazo continua a ser um desafio complexo e difícil.

O especialista sublinhou que a qualidade de vida é altamente subjetiva e depende de múltiplos fatores. Embora a perda de peso seja, de um modo geral, bastante benéfica, isso não significa que melhore automaticamente todas as condições de saúde ou todos os aspetos da vida do doente em simultâneo. Segundo Ali, costuma explicar aos seus doentes que estes medicamentos são ferramentas para facilitar mudanças nos hábitos alimentares e no estilo de vida, sendo os melhores resultados alcançados quando os doentes conseguem implementar alterações duradouras e significativas.

Os autores do estudo referem também que muitos dos ensaios incluídos tiveram períodos de acompanhamento relativamente curtos, o que dificulta determinar os efeitos a longo prazo destes medicamentos na segurança, na qualidade de vida e na saúde cardíaca e renal dos doentes. Sublinham ainda que a evidência sobre alguns tratamentos mais recentes continua limitada, e que os participantes nos ensaios clínicos podem não representar de forma fiel a população mais ampla que utiliza estes medicamentos na prática clínica do dia a dia.

Estes resultados oferecem uma comparação atualizada entre os tratamentos disponíveis e emergentes para a obesidade, o que pode ajudar profissionais de saúde e doentes a ponderar, em conjunto, as vantagens e desvantagens de cada opção. Os investigadores concluem que as decisões relativas ao tratamento da obesidade devem ser sempre personalizadas, equilibrando os benefícios prováveis com os potenciais prejuízos, os custos, o acesso e as preferências de cada doente.

Segundo Li, os benefícios variam de pessoa para pessoa, consoante as prioridades individuais de saúde de cada uma. O peso e as complicações associadas à obesidade determinam a relevância clínica da situação, incluindo a expectativa de saúde futura do doente. Médicos e doentes deverão, assim, optar por uma decisão partilhada, discutindo a perda de peso esperada juntamente com a evidência sobre os benefícios cardiovasculares, os efeitos secundários, as incertezas, o peso do tratamento no quotidiano, o custo e a necessidade de uso prolongado.

Segundo o especialista, a discussão entre médico e doente deve centrar-se naquilo que realmente importa para a pessoa, apoiando uma decisão conjunta, em vez de se apresentar um único medicamento como universalmente superior aos restantes.

Num comentário publicado em conjunto com o estudo, outros investigadores consideram que esta revisão fornece informação valiosa para as conversas entre doentes e profissionais de saúde, num momento em que o número de medicamentos disponíveis contra a obesidade continua a aumentar. Acrescentam ainda que estudos futuros, focados nas características individuais de cada doente e em resultados a mais longo prazo, incluindo a sobrevivência, serão fundamentais para melhorar as decisões terapêuticas nesta área.

Segundo Sheyu Li, os objetivos do tratamento devem ir muito além da simples perda de peso, incluindo o bem estar geral, a função física, a qualidade de vida, a força muscular, a tolerância ao tratamento e a prevenção de complicações associadas à obesidade. As pessoas com menor volume muscular à partida devem prestar particular atenção à preservação da massa muscular durante o uso destes fármacos, enquanto quem apresenta maior risco cardiovascular tenderá a retirar mais benefícios da prevenção proporcionada por alguns destes medicamentos.

Mir Ali reforçou que a perda de peso é apenas uma componente da saúde global de cada pessoa, sendo essencial informar plenamente os doentes sobre o modo de funcionamento destes medicamentos, incluindo os riscos e benefícios envolvidos. É igualmente importante definir objetivos realistas, de forma a evitar frustrações, e garantir que os doentes compreendem que estes tratamentos costumam exigir um uso prolongado no tempo. Segundo o médico, a prática regular de exercício físico, mesmo que seja apenas caminhar, pode ajudar a preservar a massa muscular e a facilitar a perda de peso.

Quanto aos aspetos a considerar antes de iniciar este tipo de tratamento, Li defende que cada doente deve refletir sobre os seus próprios objetivos de saúde, o risco de complicações associadas à obesidade, os benefícios esperados para além da perda de peso, os possíveis efeitos secundários, a comodidade do tratamento, o custo, o acesso e a disponibilidade para manter o tratamento a longo prazo. Segundo o especialista, não existe um único medicamento ideal para todas as pessoas, dependendo a escolha certa dos riscos, das prioridades e das preferências de cada doente.

Já Mir Ali sublinha que os doentes devem ponderar a sua própria disponibilidade para adotar mudanças significativas e duradouras no estilo de vida, usando o medicamento apenas como um apoio complementar a esse processo. O médico conclui ainda que fatores práticos, como a cobertura do seguro de saúde, o custo do tratamento e a necessidade de uso prolongado, são considerações essenciais antes de qualquer pessoa iniciar este tipo de terapêutica.

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